Inteligência artificial na tatuagem: como artistas brasileiros estão usando tecnologia para elevar o nível da arte na pele

A tatuagem sempre foi uma arte construída à mão, baseada em técnica, sensibilidade e confiança. Mas, assim como outras profissões criativas, ela também começou a sentir os impactos das novas tecnologias.

Nos últimos anos, a inteligência artificial passou a integrar o processo criativo de alguns artistas brasileiros, não como substituta do traço humano, mas como ferramenta de qualificação, precisão e estratégia profissional. O movimento acontece em um cenário de forte expansão e competitividade do setor.

De acordo com levantamentos internacionais de comportamento e consumo, como pesquisas da Statista e da Ipsos, o Brasil está entre as nações com maior adoção de tatuagens no mundo. Estima-se que cerca de 30% da população brasileira possua ao menos uma tatuagem, índice que coloca o país no Top 10 global em termos de cultura corporal. Esse cenário tem impulsionado o crescimento acelerado de estúdios e profissionais, elevando também o nível de exigência do público.

Com a popularização da tatuagem e a facilidade de acesso a cursos e equipamentos, o número de profissionais cresceu rapidamente no país, tornando o mercado mais disputado e técnico.

De acordo com Geudsmar Soares Macedo, especialista em desenvolvimento profissional e transformação do trabalho e sócio da Radar Consultoria Empresarial, diferenciar-se deixou de ser apenas uma questão estética e passou a envolver método, processo e posicionamento profissional. “É inquestionável o quanto os recursos da inteligência artificial contribuem para otimizar a produção. O risco está quando ela se torna a única fonte de inspiração, especialmente em trabalhos que exigem identidade, autenticidade e criatividade”, afirma.

Para Geudsmar, a IA só gera valor real quando preserva a singularidade humana. “Nós temos algo muito potente, que é a nossa subjetividade. Essa singularidade precisa estar presente em tudo o que produzimos, inclusive quando utilizamos a inteligência artificial”, pontua. Segundo ele, uma estratégia eficaz é inverter a lógica do uso da tecnologia: “Primeiro eu crio, parto de uma folha em branco. Depois, utilizo a IA para ampliar o meu processo criativo. Assim, a identidade permanece demarcada.”

Tecnologia como processo, não como atalho

Na tatuagem, o uso da IA tem sido aplicado principalmente na fase de criação e planejamento. Em vez de recorrer a imagens genéricas ou referências prontas, alguns artistas utilizam diferentes ferramentas de inteligência artificial para construir desenhos exclusivos a partir da ideia do cliente, pensados desde o início para aquele corpo.

É o caso do tatuador Eder Galdino, especialista em realismo preto e branco, premiado em convenções nacionais e um dos pioneiros no Brasil a integrar a inteligência artificial de forma estruturada ao processo criativo. “No começo, as imagens geradas por IA ainda tinham muitos erros técnicos, mas já eram visualmente interessantes. Naquele momento, quase todo tatuador usava as mesmas referências, o que deixava muitos trabalhos parecidos. Vi ali uma oportunidade real de diferenciação”, relata.

Segundo Eder, o processo evoluiu rapidamente. “Passei a usar a IA para criar elementos específicos e, com o tempo, a gerar imagens muito próximas do que eu tinha em mente. A partir daí entra o meu olhar artístico e técnico. A IA é ferramenta. A decisão final é sempre humana.”

Ainda de acordo com o tatuador, o diferencial não está em gerar imagens, mas em transformá-las em arte aplicada à pele. “Eu analiso a anatomia do cliente, a musculatura, o movimento do corpo. O desenho precisa conversar com a pele. Não existe copiar e colar.”

Visualização antecipada e experiência personalizada

Outro ponto central desse processo é a visualização prévia da tatuagem no corpo do cliente. Antes da sessão, Eder simula digitalmente como a arte ficará aplicada na pele, permitindo ajustes finos e alinhamento total de expectativas. “Quando o cliente vê como a tatuagem vai ficar no próprio corpo, a decisão se torna muito mais consciente. Isso muda completamente a relação entre artista e cliente. É um trabalho construído a quatro mãos”, explica.

Essa abordagem ganhou evidência prática durante a última edição da Tattoo Week, a maior convenção de tatuagem da América Latina. A pele tatuada por Eder durante o evento foi a de Rafael Vicente Moreira, analista de segurança da informação, que já possuía duas tatuagens e escolheu a Tattoo Week para realizar sua maior tatuagem até então. A obra somou 27 horas de trabalho ao longo dos três dias de competição.

“O que me chamou atenção foi a qualidade e o nível de detalhes do trabalho do Eder. A tatuagem é totalmente única — sei que não vou encontrar ninguém com algo parecido”, relata Rafael. Ele também destaca o cuidado no processo: “Mesmo em um ambiente de competição, o Eder é extremamente detalhista e acessível, o que me deixou muito tranquilo durante todo o trabalho.”
A tatuagem executada durante o evento acabou premiada, reforçando como a combinação entre tecnologia, método criativo e leitura anatômica pode transformar inovação em arte duradoura na pele.

Para Geudsmar, esse tipo de abordagem reflete uma mudança mais ampla na economia criativa. “O mercado valoriza cada vez mais experiências personalizadas e processos qualificados. A tecnologia entra como aliada de quem quer entregar algo único, e não em escala.”

Qualificação como diferencial competitivo

Na avaliação do especialista, a inteligência artificial evidencia uma divisão clara no mercado criativo. De um lado, profissionais que dominam a tecnologia de forma estratégica; de outro, aqueles que a utilizam apenas como atalho. “O Brasil lidera globalmente o uso de IA generativa, à frente de países como Estados Unidos e Japão. Segundo pesquisa Ipsos/Google de 2024, 54% da população brasileira já utiliza IA, e 78% dos profissionais afirmam usar a tecnologia no trabalho”, destaca Geudsmar.

Apesar disso, ele alerta para um gargalo importante: “Existe uma escassez crítica de profissionais realmente qualificados. A demanda cresce, mas muitos ainda não têm formação adequada para lidar com problemas complexos gerados pela própria tecnologia.”

Eder concorda. Para ele, a tecnologia não simplifica o trabalho — ela o torna mais complexo e mais responsável. “Você precisa saber exatamente o que pedir, como ajustar e como adaptar ao corpo real. A inteligência artificial não pensa por você.”

O futuro da arte na pele

À medida que a tatuagem se consolida como parte relevante da economia criativa contemporânea, o uso consciente da tecnologia aponta para um futuro em que arte, técnica e inovação caminham juntas.

“A tatuagem continua sendo arte, feita por pessoas”, resume Eder. “A diferença é que hoje temos ferramentas que nos ajudam a ser mais precisos, mais autorais e mais responsáveis com o que colocamos na pele de alguém.”

Para Geudsmar, esse é um caminho sem volta. “A grande adaptação está na mudança de mentalidade. A tecnologia não é ameaça, é aliada. Quem investe em qualificação e entende esse novo cenário não apenas se mantém relevante — lidera.”



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