Por Kevin Janzen, CEO do Gaming e EdTech AI Studio na Globant
A cada quatro anos, a Copa do Mundo invade nossas vidas como se fosse o maior lançamento global da indústria de games, reunindo uma audiência mundial em uma data fixa, com impacto cultural imediato.
Neste ano, a FIFA estima que mais de cinco bilhões de pessoas assistirão à Copa do Mundo em algum momento, tornando-a um dos eventos mais vistos da história. É o mais próximo que existe de um lançamento global de videogame. Mas, enquanto ambos geram enormes picos de atenção, apenas um foi pensado para mantê-la ao longo do tempo.
O universo dos games é concebido como um sistema contínuo, projetado para maximizar a frequência de uso, a retenção e a interação ao longo do tempo. Já o esporte ao vivo continua otimizado para janelas de exibição programadas, nas quais a atenção atinge o pico durante a partida e cai imediatamente após o apito final.
Para líderes de produto da indústria de streaming e executivos de mídia esportiva responsáveis por retenção e receita média por usuário (ARPU), a oportunidade não está em mudar o evento ao vivo, mas em capturar a audiência antes e depois dele.
Os games resolveram a retenção. O esporte ainda não
As audiências atuais esperam interagir, não apenas assistir. Também esperam poder se reconectar quando quiserem, e não apenas quando o evento está acontecendo ao vivo. A indústria dos games não apenas responde a essas expectativas: ela as define.
A principal diferença está na capacidade de persistência, de fazer os usuários retornarem repetidamente, em vez de captá-los apenas uma vez. Os games são on-demand por definição, permitindo que jogadores se conectem a qualquer momento, avancem dentro do conteúdo e permaneçam engajados além de um único momento. Já o esporte ao vivo depende naturalmente do tempo. A participação está vinculada a um horário e, uma vez encerrada a partida, a atenção do fã tende a diminuir até o próximo evento.
Essa persistência é reforçada pela interatividade. Nos ambientes de games, em vez de permanecerem relegados à arquibancada como espectadores passivos, os usuários são participantes ativos. Quando um jogador descobre uma estratégia vencedora, outros podem replicá-la instantaneamente, transformando conteúdo em comportamento.
Eles também podem contribuir para criar a experiência. Segundo a Bain, 79% dos gamers já jogaram títulos com conteúdo gerado pelos próprios usuários, desfazendo a fronteira entre audiência e participante. A interação torna-se progressiva, moldada pela experimentação e pelos resultados pessoais, em vez de uma experiência fixa de visualização.
Plataformas como Twitch e Discord ampliam essa interação para além da experiência de jogo, transformando o consumo em uma camada social sempre ativa, na qual as audiências cocriam a experiência em tempo real. Os usuários podem interagir diretamente com criadores e entre si, e até influenciar o desenvolvimento dos jogos, criando vínculos que ultrapassam uma única sessão.
Fazer com que os usuários retornem de maneira consistente também depende de oferecer um motivo claro para isso. Mecânicas como passes de batalha, eventos por tempo limitado e sistemas de progressão criam esse incentivo diário, muito além do lançamento. Progressão, comunidade e recompensas se combinam para manter o interesse ao longo do tempo.
À medida que essas expectativas se consolidam, o esporte ao vivo deixa de competir apenas com outras transmissões e passa a competir com plataformas interativas.
Como o esporte pode capturar a atenção além do apito final
O esporte ao vivo não precisa se transformar em uma cópia dos games. Mas pode adotar os princípios que tornam os ambientes de jogos contínuos, prolongando a experiência em torno dos eventos sem alterar sua essência.
1. Pensar a experiência além do evento em si
O engajamento contínuo nos videogames surge a partir da forma como o conteúdo é organizado para incentivar os usuários a retornarem repetidamente. Atualizações, desafios e narrativas em evolução dão motivos para voltar muito depois do lançamento.
O esporte ao vivo já possui esses ingredientes, mas eles ainda não estão conectados. A expectativa prévia, a transmissão ao vivo e o conteúdo pós-jogo podem ser integrados em uma experiência contínua, em que cada etapa se apoia na anterior.
Isso se reflete em recursos como replays dinâmicos, análises sob diferentes ângulos ou simulações de jogadas alternativas, que prolongam a vida útil de um momento. A experiência não termina com o apito final – ela continua se desenvolvendo.
Adicionar dados mais ricos e contexto também torna o conteúdo pós-jogo mais personalizado e imersivo, transformando-o de um resumo estático a uma continuação da narrativa.
2. Transformar Transformar espectadores em participantes
A interatividade transforma o consumo passivo em participação ativa. Em vez de apenas assistir, as audiências podem reagir em tempo real, influenciar sua experiência e definir como interagem com o conteúdo.
O esporte ao vivo pode incorporar essas camadas sem modificar o jogo em si. Previsões em tempo real, recursos interativos na tela (como a função X-Ray do Amazon Prime Video) e modos alternativos de visualização permitem que os fãs tomem decisões junto com a ação, seja antecipando resultados ou personalizando a forma de acompanhar a partida.
Recursos como quizzes ao vivo ou experiências dinâmicas de apostas ampliam esse comportamento, criando pontos de contato antes, durante e depois do jogo. Em vez de se conectarem apenas uma vez, os fãs têm motivos para retornar, acompanhar resultados e permanecer envolvidos.
3. Aproximar as comunidades de fãs da experiência
Tanto os videogames quanto o esporte prosperam em comunidade. Os fãs se reúnem em espaços como Reddit, X, Twitch e Discord para conversar, acompanhar desempenhos, reviver momentos marcantes e seguir histórias à medida que evoluem.
O próximo passo é potencializar os pontos em que esses comportamentos se cruzam. Formatos como as experiências gamificadas do Ultimate Fighting Championship – nas quais os fãs podem simular confrontos e interagir com cenários alternativos – ampliam a conversa para além do evento ao vivo e oferecem algo para acompanhar e debater entre as partidas.
Ao integrar esses formatos à experiência principal, os fãs encontram motivos constantes para retornar. Eles não aparecem apenas para os jogos ao vivo, mas voltam para ver como as simulações evoluem e continuar fazendo parte da conversa.
4. De eventos isolados a ecossistemas vivos
Os eventos ao vivo sempre serão o coração do esporte e das plataformas de transmissão. São eles que criam momentos compartilhados em escala. E a escala gera atenção, mas os sistemas geram continuidade.
Os videogames demonstraram que o engajamento sustentado vem de sistemas projetados para continuidade e participação da audiência. Para capitalizar plenamente a atenção gerada pelos eventos ao vivo, as plataformas precisam deixar de tratá-los como pontos finais e começar a construir ecossistemas ao redor deles.
Pense em um gol no último minuto: hoje ele gera um pico de audiência. Amanhã, poderá se transformar em horas de engajamento contínuo — se existir a infraestrutura necessária para sustentá-lo.






