Febraban Tech 2026 | IA híbrida e computação de borda avançam no setor financeiro e aproximam o processamento dos dados

A Febraban Tech 2026, consolidada como o maior congresso de tecnologia e inovação do setor financeiro na América Latina, realizou sua 36ª edição no Distrito Anhembi, em São Paulo. Sob o tema central “Agentes Inteligentes, liderança humana”, o encontro reuniu líderes do mercado e gigantes da tecnologia para debater a coexistência entre sistemas autônomos de Inteligência Artificial e a tomada de decisões corporativas. Nesse cenário de profunda transformação, gigantes globais como Lenovo e Intel ganharam protagonismo ao apresentar soluções desenhadas sob medida para responder às estritas exigências do mercado nacional.

Essa movimentação reflete um momento em que a rápida evolução da Inteligência Artificial força o mercado a repensar como processa suas informações. Se nos últimos anos a nuvem centralizou as operações, hoje a tendência aponta para a descentralização. Essa mudança é ainda mais crítica no setor financeiro, em que fatores como segurança, latência ultrabaixa, conformidade regulatória e governança de dados têm peso dobrado.

Para entender como as instituições financeiras estão equilibrando essas demandas e se preparando para essa nova era, conversamos com Devanir Teixeira, Business Development Manager Latam da Lenovo, e Roberto Corrêa, Telecom Industry Technical Director da Intel. As conversas revelaram um claro ponto de convergência: o futuro da Inteligência Artificial no setor não depende de uma única via. A grande aposta é a adoção de modelos híbridos, que equilibram o processamento entre infraestruturas locais, ambientes em nuvem e soluções de Edge Computing (computação de borda), aproximando a IA do dado exato e da operação em tempo real.

Devanir Teixeira, Business Development Manager Latam da Lenovo
Roberto Corrêa, Telecom Industry Technical Director da Intel

Uma nova arquitetura para a Inteligência Artificial

Se nos últimos anos o principal desafio das organizações era simplesmente viabilizar e tirar os projetos de IA do papel, hoje a discussão subiu de patamar. A questão central deixou de ser apenas como executar esses modelos inteligentes e passou a envolver eficiência de custos, desempenho bruto, segurança regulatória e o controle absoluto sobre a governança dos dados.

Na visão de Devanir Teixeira, o mercado financeiro atravessa uma fase de calibração após a primeira onda de expansão da tecnologia. Segundo ele, o movimento inicial de centralização já não atende a todas as demandas do ecossistema.

“Quando a IA começou a ganhar escala nas empresas, a primeira reação foi levar tudo para a nuvem. Mas existem aplicações que exigem processamento descentralizado, levando a capacidade computacional para o mais perto possível de onde o dado real é gerado” pontua o executivo da Lenovo.

Essa necessidade de proximidade tem redesenhado a infraestrutura de TI do setor. O modelo rígido de armazenamento dá lugar a uma engenharia distribuída, na qual diferentes ambientes assumem papéis específicos. É nesse cenário que o avanço do hardware local ganha força. Roberto Corrêa observa que a evolução de processadores e aceleradores dedicados na ponta da operação abriu um novo leque de autonomia para as instituições, permitindo executar tarefas de inteligência sem depender de investimentos astronômicos.

Uma das grandes respostas da Intel para viabilizar essa arquitetura descentralizada é o AMX (Advanced Matrix Extensions), um acelerador de hardware embutido diretamente dentro de cada núcleo da sexta geração de processadores Intel Xeon. Essa engenharia permite rodar modelos locais de Inteligência Artificial de forma nativa e extremamente veloz.

“Esse recurso tem sido usado com sucesso para processar redes neurais focadas no negócio, que variam de 7 a 12 bilhões de parâmetros, chegando em alguns casos a 20 bilhões. A ideia não é substituir os aceleradores dedicados em tudo, mas sim viabilizar projetos onde uma GPU seria um recurso caro demais, o famoso ‘canhão para matar mosquito’. O AMX viabiliza novas aplicações com custo baixo e eficiência energética” analisa o diretor da Intel.

IA Híbrida e o equilíbrio entre controle e escalabilidade

É justamente a busca por esse equilíbrio que pode consolidar a IA híbrida como a arquitetura dominante para o futuro do setor financeiro. Longe de ser apenas um conceito teórico, o modelo se destacou na feira como uma resposta prática para dar flexibilidade estratégica às organizações, permitindo decidir cirurgicamente quais dados ficam sob chave em servidores internos e quais ganham a escala da nuvem.

Na visão de Devanir Teixeira, a arquitetura responde a uma exigência inegociável do mercado atual: a soberania e a autonomia sobre as informações.

“O foco mudou. O objetivo agora é dar o poder para que cada instituição decida exatamente onde os dados devem ser processados, balanceando suas metas de negócios com as rédeas rígidas de segurança e conformidade regulatória” explica o executivo da Lenovo.

Se, pelo lado dos negócios, a IA híbrida garante governança, pelo lado operacional ela traz blindagem no tráfego de dados confidenciais. Roberto Corrêa argumenta que o modelo híbrido se encaixa perfeitamente com a nova era da “IA Agêntica”. Com a combinação de recursos locais e técnicas como RAG (Retrieval-Augmented Generation, que consulta bases privadas locais), a instituição impede que dados sensíveis vazem para fora da empresa por meio de conexões automáticas de robôs.

“Numa IA agêntica padrão, se você conectar várias APIs de mercado sem governança, seus dados proprietários podem ir parar em qualquer lugar e você perde totalmente o controle. Com a arquitetura híbrida e o processamento local, o risco de tráfego associado a dados altamente sigilosos cai drasticamente” pondera o diretor da Intel.

A economia da Inteligência Artificial

Além das discussões sobre segurança, as linhas de custo operacional da Inteligência Artificial foram um tema recorrente nos debates. Se na primeira onda o foco estava em colher ganhos iniciais de produtividade, a prioridade agora virou a sobrevivência financeira dos projetos à medida que as ferramentas ganham uso em massa.

Devanir aponta que muitas empresas estão começando a levar um susto com a fatura de nuvem pública, principalmente pelo impacto invisível da comunicação humana com as máquinas. Há, inclusive, discussões sobre como hábitos culturais simples, como iniciar e encerrar comandos com saudações cotidianas (“bom dia”, “por favor” ou “obrigado”) podem pesar diretamente no orçamento corporativo.

No jargão técnico, cada palavra ou pedaço de texto enviado é convertido em tokens, que funcionam como a moeda de cobrança das grandes ferramentas de IA. Quando multiplicada pelas interações diárias de milhares de colaboradores e clientes, essa etiqueta verbal se transforma em um desperdício em massa cobrado em dólares. Roberto Corrêa, da Intel, confirma que a explosão inesperada no volume de consumo mensal de tokens tem surpreendido os diretores de tecnologia do país.

Para conter esse gargalo financeiro, a Lenovo destacou no evento o AION (tecnologia de Inteligência de Rede de IA da Lenovo). Desenvolvido como uma alternativa economicamente previsível, o ecossistema foi desenhado em parceria com a Intel e possui fabricação local em território brasileiro. O sistema funciona como um nó de servidor (node) corporativo de alta potência focado em IA Generativa local. O AION permite que as empresas rodem seus próprios modelos de linguagem dentro de casa, tirando o peso financeiro das saudações diárias da nuvem e eliminando a dependência absoluta de placas de vídeo (GPUs) de alto custo para a fase de inferência.

“Montamos uma solução completa em pacote fechado, onde o cliente já recebe uma API para conectar à sua base de dados. E se por acaso o projeto de IA da empresa mudar de rumo no futuro, o cliente não perde o investimento: ele fica com um hardware robusto com processadores Xeon de última geração, 1 Terabyte de memória e 15 Terabytes de disco para rodar qualquer outro workload tradicional do mercado” destaca Devanir Teixeira.

A IA chega aos dispositivos de ponta

Se a nuvem e os servidores de missão crítica sustentam as aplicações de larga escala, o avanço tecnológico agora abre espaço para uma nova geração de computadores portáteis capazes de rodar Inteligência Artificial de forma nativa na mão do usuário. O divisor de águas dessa evolução é a popularização das NPUs (Neural Processing Units), aceleradores de hardware dedicados exclusivamente a processar IA sem sobrecarregar o processador principal ou esgotar a bateria do aparelho.

Um dos grandes exemplos dessa tendência levados para a feira foi o novo notebook corporativo ThinkPad T14, fruto da colaboração direta entre a Lenovo e a Intel. Equipado com a arquitetura dos processadores Intel Panther Lake e com suporte ao assistente inteligente Qira, o modelo foi apresentado como um símbolo de maturidade da indústria, onde o poder computacional antes restrito a grandes servidores passa a caber dentro da mochila de um funcionário.

Mais do que uma simples atualização de hardware, a corrida para equipar equipes com inteligência local está mudando radicalmente os ciclos de investimento e logística de TI no setor financeiro. Devanir Teixeira revela uma transformação profunda no comportamento de compra das instituições.

“O efeito que a gente acompanhava até três anos atrás era de empresas comprando notebooks para durar de 5 a 7 anos, deixando o equipamento rodar até não ligar mais. Hoje, esse ciclo caiu para 2 ou 3 anos. Grandes instituições já adotam a troca de frotas a cada 2 anos porque os sistemas operacionais e assistentes embutidos exigem muito do hardware. Quem mantiver o ciclo longo vai ficar defasado, perder produtividade e travar a eficiência operacional da sua operação” alerta o executivo da Lenovo.

Para garantir que essa troca acelerada de computadores e a transmissão interna de dados permaneçam imunes a invasões, a Intel destacou suas tecnologias de segurança implementadas direto no silício. Roberto Corrêa detalhou o papel do SGX (Security Guard Extensions) e do TDX (Trust Domain Extensions), que pavimentam a era do chamado Confidential Computing (Computação Confidencial).

“Essas ferramentas isolam porções da memória do computador em nível de hardware. Mesmo em ambientes virtuais ou compartilhados, os dados em processamento ficam completamente protegidos. Agora, com o avanço do TDX Connect, conseguimos estender essa blindagem inclusive quando o processador Intel troca informações com placas externas de processamento da Nvidia, garantindo que a cadeia de transmissão de dados bancários continue 100% protegida dentro do servidor” explica o diretor da Intel.

A infraestrutura da próxima onda de IA

Mais do que uma vitrine de novos equipamentos e chips de última geração, a Febraban Tech 2026 evidenciou uma mudança profunda na maturidade do mercado financeiro. A discussão não é mais sobre o potencial fascinante da Inteligência Artificial ou se ela fará parte do dia a dia do setor, mas sim sobre como construir as fundações de engenharia capazes de sustentá-la em escala real, com ética e viabilidade financeira.

No fim do dia, o sucesso das organizações não será medido pelo tamanho bruto dos seus modelos de IA, mas pela inteligência e pelo equilíbrio com que elas distribuem essa capacidade de processamento entre suas diferentes camadas tecnológicas. E as arquiteturas híbridas e locais apresentadas no evento mostraram que podem ser o mapa para guiar o setor rumo a essa nova era.

Compartilhe:

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Além do Click no YouTube

Publicações recentes​

  • All Posts
  • games
  • geek
  • mercado
  • ofertas
  • tech
    •   Back
    • gadgets
    • inteligência artificial
    • apps e softwares
    • eventos tech
    • entrevistas tech
    • notícias tech
    • software
    • casa inteligente
    • Gamer
    •   Back
    • casa inteligente
    • Gamer
    •   Back
    • cinema e séries
    • eventos geek
    • entrevistas geek
    • música
    •   Back
    • eSports
    • reviews games
    • retro games
    • lançamentos games
    • eventos gamer
Load More

End of Content.

Ofertas Além do Click

Yuri Rodrigo de Camargo

Produtor de Conteúdo Digital com mais de 14 anos de experiência em redação e produção de conteúdo de textos e vídeos informativos, coberturas de eventos de lançamentos de produtos e tecnologias diversas e análises de produtos, aplicativos e serviços para sites como Diário do Android (2011-2012), Mobile Xpert (2012-2016) e Tempo Integral (2016-2018).

Dedicado desde 2018 à criação e produção de conteúdo para o site e canal do YouTube Além do Click: Tech, Games & Geek.

Além do Click: tech, games & geek

Além do Click é uma plataforma de conteúdos sobre tecnologia, games e cultura geek, com um site e um canal no YouTube.

Aqui no site, você encontra notícias, artigos, análises de gadgets, games, serviços e cobertura de eventos.

© 2025 Além do Click: tech, games & geek

plugins premium WordPress